O que tens que saber para ser mais feliz AGORA

Entende a felicidade antes de tentares ser feliz. Se o futuro que esperas demora a chegar, se a vida parece que te está a passar ao lado, se te parece que estás encalhado numa má situação e não há saída dela, tens que compreender o mecanismo que te levou a essa situação de descontentamento. Se perceberes terás uma porta aberta para enfrentar ESTE dia de forma diferente, e alterar essa situação.

Vamos fazer um exercício:

1. Pensem na pessoa mais feliz que conhecem. E conhecer é pessoalmente, não nas redes sociais;

2. Enumerem razões porque acham que essa pessoa é feliz;

3. Enumerem razões pelas quais vocês se considerariam felizes;

4. Comparem as razões dessa pessoa com as vossas razões hipotéticas.

Os resultados foram de alguma forma surpreendentes? As vossas razões provavelmente foram um pouco mais objectivas do que as da tal pessoa. Por exemplo, para mim, a pessoa que eu acho mais feliz é a D. Jacinta do café. Ela está visivelmente feliz e sorridente sempre que a vejo. Não aparenta ter nenhuma preocupação no mundo senão tirar o melhor café e dar dois dedos de conversa bem-disposta com os clientes. Simples e feliz. Não sei se a D. Jacinta sofre em silêncio alguma agrura da vida, mas para mim é a pessoa mais feliz que eu me lembro assim de repente.  

Agora em relação ao como eu seria feliz? Nunca poderia tirar cafés e ser feliz, é logo a primeira. Eu sou mais complexo que isso… (normalmente os nossos sonhos são pretensiosos, certo?) Se tivesse dinheiro para pagar todas as minhas obrigações, pudesse viajar pelo mundo a explorar todos os meus talentos (que não sei bem quais são) e fizesse uma diferença substancial na vida da minha família e do mundo em geral, seria feliz.

Ora, não sei bem porquê, olhando para mim e para a D. Jacinta, penso que ela é, e vai ser, definitivamente mais feliz que eu.

Então para ser feliz não é necessário ser ambicioso, Valter?

Pois é, essa felicidade que estás a pensar – de nos sentirmos bem connosco próprios, alegres com a vida – é muito mais simples de atingir se não fores ambicioso. (pelo menos o que nós associamos ao termo “ambicioso”)

Vamos explorar este conceito do início

O que é a felicidade?

Esta é a definição que eu considero como sendo a aceite actualmente, na maior parte do mundo: A felicidade é um estado de espírito, uma emoção, muito similar à alegria. É aquele sentimento que nós teríamos constantemente se chegássemos a um certo ponto da nossa vida em que todos os nossos sonhos se concretizassem.

O que eu penso acerca desta definição: A-BSUUUR-DA.

Porque eu a considero absurda:

1. É uma definição que se concentra num ponto no futuro. E, como já te deves ter apercebido, nós não temos qualquer controlo sobre o futuro. Bem, até temos algum, mas não dá as garantias de sucesso implícitas nesta definição.

Então Valter, mas não temos que pensar e planear para o futuro? Claro que podemos (e devemos) fazê-lo, mas é algo que não tem nada que ver com felicidade. Já lá chego.

2. É um estado de espirito, ou seja, é inconsciente e não controlável.

Já todos estivemos felizes, assim como já todos estivemos infelizes. Assim como já estivemos tristes e já estivemos alegres.

Uma definição de felicidade, como colocamos normalmente, é utópica, e “utópico” no meu dicionário significa “absurdo”.  É do género: “Quando eu estiver reformado vou poder fazer todas aquelas coisas que agora, por não as fazer, me deixam deprimido. Quando lá chegar é que vou ser feliz.”

3. “Shit Happens” ou “coisas más acontecem” em mau português.

Como é obvio, nunca todos os nossos sonhos se realizam ao mesmo tempo. Nem perto. Nem seria bom se assim fosse. Qual seria depois o objetivo? Aliás, todos temos uma quantidade de infortúnios alocada para nós pelo Universo. Não há como fugir-lhe, simplesmente podemos estar melhor ou pior preparados para os “digerir” melhor.

4. Normalmente os sonhos que temos são-nos impostos, sorrateiramente, pela sociedade. Por exemplo, os sonhos dos nossos avós não seriam os mesmos que os nossos agora. Os sonhos são sempre enquadrados pela conjuntura que nos rodeia e, nesta atualidade que vivemos, somos sujeitos a uma cultura que nos faz ter sonhos irrealistas, logo, extremamente difíceis de “atingir”.

Mas assim, todo o conceito geral de felicidade, para a sociedade actual, não faz sentido?

Infelizmente, não. É um conceito que nos dirige precisamente na direcção contrária: a direcção da infelicidade e da depressão.

Como eu dizia anteriormente, para lá de estarmos a perseguir uma ilusão de alegria constante num futuro com milhões de variáveis que não podemos controlar, vivemos ainda, numa sociedade em que a “cultura do ego” ou a “cultura do individuo” está no seu auge devido a todas as tecnologias a que temos acesso. Ou seja, tudo está assente na nossa performance, na nossa capacidade de atingir o sucesso (os tais sonhos que nós pensamos que são os nossos sonhos porque a sociedade os aceitou como normativos: ter um carro, ter uma casa, viajar, ter mais, e mais, e ainda mais um bocadinho). O problema é que esses “sonhos normativos”, esse EGO que nos faz querer mais e mais, não é nada fácil de alimentar. E quando entramos nesse “JOGO DO EGO” só podem haver dois resultados possíveis:

  • um sentimento latente de insatisfação, de comparação com os outros e de depressão por nos acharmos uns coitadinhos, quando não conseguimos atingir esse nível em que estão os outros (na nossa mente).  
  • um sentimento de inebriamento pelo EGO que nos faz trabalhar mais e mais, e ter mais e mais.

Ambos resultam em DESASTRE.

Em ambos os casos o Ego não se preocupa com o que tu sentes, só quer ser maior/melhor que o Ego do vizinho. É assim que o Ego funciona.

Então não se pode fazer nada acerca de toda esta informação “dramática”?

Sim, claro que podemos. Mas para mudar algo tão enraizado em nós é necessário um trabalho extremamente intenso a nível consciente.

No meu caso, há três exercícios que se têm revelado poderosos.

1. Entrar em contacto com a nossa essência. (Sim, eu sei que soa um pouco “espiritualóide”, o tipo de coisa que se ouviria num workshop do Alexandrino… mas ter consciência deste conceito de essência é essencial) ESTAR mais de acordo com a nossa essência não implica deixar de aceitar a realidade em que vivemos, nem achar que somos especiais ou iluminados. É, simplesmente, estar mais atentos à voz dentro da nossa cabeça, perceber o quanto dela é o que realmente SOMOS. Se somos o que ela diz que somos, ou se por uma infinidade de “pensamentos racionais” nos vamos afastando do que realmente nos faz sentir NÓS. Isto não é um processo intelectual ou emocional. É, na verdade, um processo de aceitação do que já sabemos, do que sempre soubemos, do que já nascemos a saber.

2. É necessário ACEITAR o que somos. Aceitar pagar o preço. Rejeitar o resto.

Sempre ouvi dizer: tudo na vida tem um preço. E nada podia ser mais verdadeiro.

Tudo se resume a esta pergunta: qual é o preço que estás disposto a pagar para seres tu. Tudo tem de ser visto neste prisma, e este é um trabalho a um nível consciente.

Quando pomos um preço consciente nas coisas tudo fica mais claro.

Exemplos:

  • Queres atingir um determinado objetivo? Tens de estar disposto a pagar o preço e aceitar o sofrimento caso não consigas atingi-lo.
  • Queres ter uma relação profunda com alguém? Tens de estar disposto a pagar o preço e aceitar o sofrimento caso essa pessoa vá embora ou quando essa pessoa morrer.
  • Queres parecer mais bem-sucedido aos outros? Tens que estar disposto a pagar o preço e aceitar o sofrimento da mentira constante a ti próprio e aos outros.
  • Queres ser rico? Tens que estar disposto a pagar o preço e a aceitar o sofrimento caso percas a tua fortuna e de outros problemas que poderão surgir com a riqueza material, etc.

E assim sucessivamente. Estão a perceber a ideia, certo? Tudo tem um preço. É como um orçamento, mas aqui gerem-se expectativas.

3. Utilizar ao máximo o sentimento no qual temos mais controlo cognitivo: a gratidão.

QUASE tudo o que sentimos está sobre a forte influência do ego. A gratidão é uma das poucas forças que não está. Ela, pelo menos para mim, é criada a um nível cognitivo. – “Eu estou agradecido porque tenho isto, isto e mais isto” – não é algo filtrado pelo ego. Este facto torna a gratidão numa espécie de “Super Emoção”.

Uma emoção que nos torna mais fortes e podemos criar a todo o momento a nível consciente? Sim, existe, chama-se gratidão e está ao dispor de toda a gente.

Ao contrário da felicidade, alegria, tristeza, raiva, etc, a gratidão pode ser criada do nada, cognitivamente e racionalmente. E, como emoção positiva que é, tem influência imediata no nosso bem-estar geral.

Por todas estas razões, ela tem o poder de mudar a nossa percepção e dar-nos mais controlo sobre o PRESENTE.

Lembram-se da tal definição de felicidade, no inicio do texto?

“A felicidade é um estado de espírito, uma emoção, muito similar à alegria. É aquele sentimento que nós teríamos constantemente se chegássemos a um certo ponto da nossa vida em que todos os nossos sonhos se concretizassem.”

Vou mudá-la ligeiramente para uma definição que eu não considero absurda:

A gratidão é um estado de benção, uma emoção, muito similar à alegria. É aquele sentimento que nós temos constantemente quando chegamos à conclusão que o que interessa na vida está no presente.”

Então com gratidão já faz sentido?

Sim senhor(a)!

  1. É uma definição que se concentra no presente.
  2. É um estado cognitivo, ou seja, é consciente e controlável.
  3. Mesmo que algo de horrível nos tenha acontecido, há sempre algo para ser agradecido. (mesmo que o ego diga que não)
  4. É um sentimento/pensamento nosso. Não tem um filtro da sociedade.

Então é melhor procurar gratidão em vez de felicidade? Sim, é esse o moral da história. Porque a gratidão nos mantém no presente, ao contrário do desejo de felicidade que nos prende ao passado ou nos foca no futuro.

De resto, o problema é sempre o mesmo e igual para todos nós. Qual é o preço que estás disposto a pagar para seres tu? E, para responder a isso, convém estar no presente e decidir no presente. Porque se não te aperceberes no presente do preço que estás a pagar, quando chegares ao tal futuro, já pagaste. E não há volta a dar.

Não tenho a certeza, mas julgo que a D. Jacinta optou mais por esta onda da gratidão.

(Espero que não tenha sido demasiado para assimilar… Voltarei com mais detalhe a estes assuntos do Ego e Essência)

Até à próxima,

Com amizade.

Valter

Uma Avestruz Voadora

Written by Valter