O estranho caso do Fevereiro Guerreiro

Fevereiro guerreiro, sem dúvida uma experiência ambígua.

Para contextualizar, Fevereiro do ano passado propus-me a um desafio de “produtividade e desenvolvimento pessoal”. Era o início do blog, estava a todo o gás a desenvolver novos conteúdos, diariamente a escrever novos artigos e publicações nas redes sociais. Estava a sofrer de SEI (Síndrome de Entusiasmo Inicial) que eu desenvolvo com tudo o que é novidade. O feedback estava a ser óptimo. A ideia por trás do desafio era: “Ok, vou-me colocar à prova para demonstrar que é possível ultrapassar hábitos identificados como nocivos (no meu caso: falta de rotinas, actividade física inconsistente, e consumo excessivo de açucares) à força da vontade própria, e implementar novos hábitos no período de um mês.

Resultado: Um mês de Fevereiro fantástico em termos de superação, meses seguintes de trauma.

O que quero dizer com trauma? Bem, o mês foi intenso. Passar de uma situação de indisciplina e impreparação física para acordar todos os dias às 5h da manhã e correr mais de 280kms num mês foi dose. A energia foi abundante e muito trabalho foi feito. No entanto, a partir de um certo momento, penso que o foco deixou de estar em mim e no meu processo de melhoramento e passou simplesmente para o “completar do desafio”. Quando este “completar do desafio” foi atingido toda a energia se evaporou e o real objectivo não foi atingido, pelo menos na totalidade. Houve coisas boas, houve transformação, mas também surgiram efeitos secundários.

Coisas boas:

– Maior disciplina pessoal > nos tempos seguintes estive mais focado, com mais capacidade de cumprir horários, e com mais energia para o dia-a-dia. Maior produtividade no geral.

– Nunca mais bebi café com açúcar.

– O trabalho que consegui completar neste mês foi essencial para ter o ano de maior sucesso a todos os níveis no meu negócio.

Efeito secundário:

– Abandono do blog > como que por magia, toda a energia criativa que foi utilizada durante o desafio desapareceu.

Efeito terciário:

Sentimento de falhanço devido ao abandono do blog

Agora, mais de um ano depois… o que aconteceu? Quais as interpretações a fazer desta experiência e seus resultados?

Uma grande lição a tirar é que nem tudo na vida é simples. Nem tudo é conquistado somente pela força de vontade. Todos nós erramos, todos nós temos fraquezas, e nem tudo pode ser resolvido com uma prescrição. O que eu quis atingir com a colocação deste objectivo foi exactamente o que advertia as pessoas num artigo que tinha escrito umas semanas antes:

“Onde se encontra esse precioso Santo Graal  da produtividade do qual todos queremos beber e fazer/ser tudo o que sempre sonhámos?

Peço desculpa, não queria dar esta informação assim sem preparação mas… esse cálice não existe. Não existe, nem nunca existirá, nenhum tipo de estratégia milagrosa que nos torne (realmente) mais produtivos.”

No fundo, o desafio foi tentar beber directamente do cálice, e acabei por dar razão a mim próprio. Claro que podemos fazer alterações deliberadas à nossa forma de viver, aos nossos hábitos, mas o que vim a concluir com o que aconteceu depois dessa “correcção à força” é que simplesmente a mudança dos hábitos não leva a uma mudança interior. O meu melhor palpite é que é o contrário: a mudança interior é que nos leva à mudança de hábitos.

A nossa vida interior é feita sobretudo de valores e princípios, que não são passíveis de mudar de um dia para o outro, que estão intrinsecamente ligados às nossas experiências e desenvolvimento anterior. Por exemplo, um hábito como o beber café sem açúcar dá para mudar de um dia para o outro (não tenho nenhum valor que interfira com isso, normalmente até já tento ter uma preocupação com a alimentação). Por outro lado, acordar às 5h da manhã, é algo que conceptualmente me agrada e já tentei várias vezes, mas que bate de frente com o meu valores de liberdade e despreocupação.

Vamos pegar no meu exemplo: Eu quero acordar às 5 da manhã.

O que me leva a acordar tarde? Eu gosto de não ter horários definidos, sei que não me ajuda em termos de produtividade geral mas sempre orientei a minha vida no sentido de ter liberdade para fazer os meus horários, trabalhar até tarde se me apetecer, estar numa saída com amigos até tarde, ficar a ver uma serie, etc.

Qual o problema aqui?

O hábito de levantar obrigatoriamente às 5h não se coaduna com os valores pelos quais me oriento no momento. Caso eu queira desenvolver esse hábito terá que existir uma negociação. “Ok, o acordar às 5h vai trazer-me isto e aquilo que eu provavelmente vou valorizar mais que a minha liberdade de horários. No fundo não estamos a trabalhar em hábitos, estamos a falar em valores: quero ser livre ou quero ser disciplinado.

As respostas a estas perguntas – sobre o que nós queremos ser – não são assim tão lineares. Temos de ter em conta que nem todos somos iguais, nem todos temos os mesmos objectivos, nem todos temos a mesma história. Este raciocínio torna-se ainda cada vez mais difícil porque vivemos num tempo em que tudo é pré-feito e de consumo rápido. Em que estamos consecutivamente expostos a novas ideias, novas tendências, novas variáveis, cada uma com o rótulo de “certa”. Tudo isto mexe connosco e tudo isto nos complica. E isso é um problema.

No pouco tempo em que estive a escrever para o blog senti muito isto, e foi uma das razões que me fez deixar de escrever durante tanto tempo. Senti que tinha que seguir uma linha, a promover a minha “ideia certa”. No fundo a ir contra o meu pressuposto inicial que era não buscar discípulos, só partilha. Mas dei por mim nesse papel muito rapidamente, e isso assustou-me.

O mundo moderno trouxe-nos isso, muitas ideias e pontos de vista, muitas trincheiras para escolher, e no fim, depois de escolhida a trincheira, cada um a defender a trincheira criada por alguém – esse líder da trincheira que lidera pelo exemplo de perfeição.

Acho essa ideia desprezível: criar uma trincheira e ficar refém dela. Tudo o que é “influencer” vive isso. Colocam-se numa posição que eles próprios são reféns da sua própria trincheira. Pode ser bom para o ego ao início, mas depois não há espaço para algo inerente à vida: o erro e a mudança. Não, isso não é para mim. Nem o criar a trincheira, nem o de defender a trincheira alheia.

Quando comecei a escrever não o fiz com esse objectivo, mas comecei gradualmente a sentir-me mais altivo, como se eu soubesse alguma coisa que os outros não sabiam. E, sinceramente, não sei. Aliás, julgo que em relação ao tema felicidade e realização pessoal, ninguém sabe. Porque é mesmo isso: pessoal. E essa é a beleza da coisa.

Por isso vou voltar a escrever aqui no blog, mas vou ter isso em atenção, não quero soar prepotente a mim próprio ou aos outros.

A Avestruz Voadora vai começar a ser um blog mais pessoal e menos “comercial”, não quero viver sobre a pressão de produção constante de conteúdo para alimentar o pessoal da minha “trincheira”. Porém, apesar de não querer ser “comercial”, acho importante a partilha de informações. Novas perspectivas são essenciais para mantermos o nosso trabalho interior a funcionar. Até à próxima 🙂

Um abraço.

Com amizade,

Valter

Uma avestruz voadora

Written by Valter