Caminho de Santiago II – Primeiros Passos e o Bastão do Caminho

A porta do comboio fechou, sou invadido por um sentimento estranho de medo e entusiasmo ao mesmo tempo. Da janela da minha carruagem vejo a Vera e o Ruben, a minha namorada e o meu irmão, a desaparecerem do meu campo de visão, enquanto lhes aceno um “adeus” entusiástico. Não há volta a dar, o chamamento que tinha sentido estava a realizar-se, o meu coração está cheio de tranquilidade, o meu cérebro cheio de medo e preocupações.

A maior parte da viagem vou a dormir. Acordo para uma sensação de antecipação, quero chegar rápido. Quero estar no Caminho. É estranho estar sozinho, não estar próximo de ninguém que conheçamos. É um sentimento ao princípio angustiante, mas não me posso queixar, no fim de contas era disso que eu ia à procura. Porém, nem sempre encontramos o que estamos à procura e, no Caminho, encontras aquilo que o Caminho quer que encontres. Por mais planos e conjecturas que faças só vais ter a experiência que precisas, não a que planeias ter. Eu estava prestes a descobrir isso.

Chego a Hendaye e ainda tenho mais dois comboios para apanhar até chegar a Saint-Jean-Pied-de-Port, o local de início do meu caminho. No último comboio cedo o meu lugar a um simpático casal de romenos, a Christina e o Robert, com os quais me voltaria a encontrar e a ficar amigo.

Finalmente a chegada a SJPP. Estava por fim a iniciar o Caminho! Olho para o mapa da estação, procuro como chegar ao albergue, converso com uma ou duas pessoas para perceber o que fazer e acabo por seguir sozinho atrás de umas pessoas que pareciam mais esclarecidas que eu.

– Hi friend! – Chama-me um rapaz que também estava na estação a tentar perceber o mapa.

– How are you? Are you looking for the Albergue?

Espero por ele e começamos a conversar. O seu nome é Filippo, italiano, 20 e poucos anos, sorriso espectacular, brinco na orelha e pinta de galã de cinema. Ah, e com um saco de guitarra na mão. Mais tarde viria a descobrir que a guitarra se chama Layla, é a sua melhor amiga e ele leva-a para todo o lado.

– Are you going to Santiago? Pergunto.

– Yes. That’s the plan.

– With the guitar? Questiono, admirado com a falta de noção do esforço necessário para carregar a guitarra até Santiago.

– Si. La llevo a cualquier lugar. Responde-me ele com a maior calma do mundo.

O Filippo fez Erasmus em Espanha e trabalhou em Inglaterra por isso fala Espanhol e Inglês perfeitamente. A nossa conversa foi uma mistura dos três idiomas: inglês, Espanhol e Portunhol.

Por vezes penso como seria o meu Caminho de Santiago se não tivesse conhecido o Filippo e, com certeza, teria sido completamente diferente. Mas o caminho é isto mesmo, um conjunto de “acasos” que te empurram na direcção do que tens que experienciar. Estava há 15 minutos no caminho e já tinha conhecido 3 pessoas que iam ser importantes para mim, que me iam ensinar algo e mudar a minha experiência. Para quem ia com a expectativa de ter 1 mês de reclusão sozinho, na companhia dos seus pensamentos em modo monge, o caminho foi peremptório e ordenou: “Não, não vai ser assim.”

Jantar em SJPP

Nesse dia, em SJPP, fomos juntos tratar da credencial, procurar o albergue e jantar junto ao rio, numa conversa sempre animada e de antecipação da aventura que estava pela frente. Combinámos seguir cedinho pela manhã.

A primeira etapa, de SJPP a Roncesvalles, é das mais duras do Caminho. Há duas rotas possíveis, a Rota de Napoleão, a mais tradicional e pela montanha, e a Rota de Vancarlos, mais segura e grande parte por estrada de asfalto. A noite tinha sido de tempestade, avisaram-nos que seria melhor seguir pela Rota de Vancarlos. Contudo não estava a chover e, já que íamos atravessar os Pirinéus, que fosse pela montanha! (Nota: era Agosto, se não forem no Verão é conveniente ter mais precauções e ir pela rota mais segura)

Primeiros Kms

Os primeiros quilómetros do percurso são extremamente íngremes, todavia a adrenalina de estar a dar os primeiros passos naquela aventura proporciona uma energia fantástica. A sensação é de filme, as paisagens são deslumbrantes e acredito que num dia de Sol sejam, ainda mais, de tirar o fôlego. Por outro lado, a névoa daquele dia trouxe uma aura mais mística à experiência. Naqueles primeiros momentos pensava nos milhares de pessoas que já tinham pisado aquelas mesmas pedras, tinham admirado aquelas mesmas paisagens. Algo me unia a elas agora, estivemos naquele caminho em direcção ao mesmo destino.

Nesta etapa a subida é quase constante durante mais de 20kms. Para quem não tem uma boa preparação física é recomendável dividir esta primeira etapa em duas (1ª- SJPP ao albergue de Orisson / 2ª- Orisson a Roncesvalles).

A História do Bastão

No principio da caminhada, ao ver a maior parte dos peregrinos a subir com os bastões de caminhada, uma ideia surgiu na minha cabeça: “Tenho de encontrar um cajado para me ajudar a subir, que raio de peregrino sou eu se não tiver um bastão como deve ser?”

Eu admito que gosto de ser diferente, não queria um bastão igual ao de todos os outros, queria algo que eu tivesse encontrado, seria mais especial. Deu-se então inicio à busca pelo meu bastão do caminho. Comecei a estar atento à vegetação, havia bastantes galhos derrubados ao longo do caminho devido à tempestade do dia anterior. Fui procurando. Não encontrava nada que me chamasse a atenção, a maioria dos possíveis bastões ou era demasiado pesado ou a madeira já se encontrava podre. Por ora, já não procurava somente para ser diferente, a subida era muita e difícil e ter um bastão iria objectivamente ajudar-me naquele dia.

Seguindo caminho e desfrutando da beleza e solenidade daquele dia, fui mantendo-me atento à floresta em busca da tal ajuda. Foi então, já próximo do Col du Lepoeder, o topo da subida, que algo muito intenso aconteceu. Depois de mais algumas tentativas frustradas na escolha do bastão, uma realização chegou à minha cabeça, apresentou-se na forma de um sentimento tão forte que o tenho presente como se o estivesse a ter agora:

“Estás no Caminho de Santiago, se tiveres que ter um bastão ele vai aparecer, não procures mais.”

E assim foi, aceitei aquela forma de pensar, acreditei, desde esse momento em diante, que o caminho me iria proporcionar aquilo que eu necessitaria, não valia a pena forçar nada. Senti profundamente que isso iria acontecer. Fui inundado por uma paz imensa nesse segundo.

Podem acreditar ou não, andei no máximo uns 50 metros e a 10 metros, pousado na encosta ao lado da estrada, lá estava: o meu bastão. Teria caído da sua árvore naquela noite, apesar de molhado era leve o suficiente para me apoiar, um pouco esquisito em termos de forma, mas era meu e era perfeito. Tive instantaneamente a certeza que me pertencia e que me iria acompanhar até Santiago.

Como devem imaginar, encontrar algo que procurava quase imediatamente após aquele sentimento profundo de que tudo se iria revelar foi uma experiência de fé absolutamente inolvidável. Senti-me genuinamente feliz. Foi nesse momento que realmente aceitei o caminho, e em vez de eu passar pelo caminho o caminho começaria aí a passar em mim.

Foi uma das melhores experiências que tive ao percorrer o Caminho de Santiago e foi uma história que, por representar tão bem o sentimento que eu estava a ter em relação ao Caminho, fui contando às pessoas que encontrava e privava com o passar dos dias. Tenho a certeza que a história do “Bastão do Caminho” foi também importante para algumas delas.

Com o passar dos dias fui limpando e trabalhando a aparência do Bastão do Caminho a pouco e pouco. Ele foi sempre um motivo de conversa e de orgulho do “português”. Esta história para mim representa o que há de mais puro no Caminho de Santiago: a importância de acreditar que o caminho nos vai revelar e trazer o que precisamos de aprender e ter, se acreditarmos profundamente na sua sabedoria.

Nesse dia o bastão acompanhou-me e ajudou-me na descida abrupta e escorregadia até Roncesvalles. Já aí, encontrei de novo o casal do comboio e tivemos uma conversa extremamente agradável (o Caminho de Santiago era a sua lua de mel). Bebi umas cervejas e cantei umas músicas com o Filippo e o Murat, um alemão super bem-humorado e um pouco excêntrico que peregrinava de bicicleta há já 5 semanas desde Hamburgo. Conheci ainda o espanhol Pablo e a mexicana Ivonne, que seguiriam caminho connosco no próximo dia.

Filippo, Murat, eu e o bastão

E assim foi o primeiro dia do Caminho de Santiago, cheio de dificuldades, memórias e sentimentos fortes. Estava finalmente no Caminho e estava feliz por isso. Nesse dia aprendi a ter fé no futuro, senti que não estava sozinho mesmo quando estava sozinho. Estava ansioso por mais dias assim.

Com amizade,

Valter,

Uma Avestruz Voadora

Written by Valter