Caminho de Santiago I – Propósito e Preparação

Porquê?

Não me recordo do momento em que fui exposto à ideia do caminho de Santiago. Não sei se foi na TV, alguma pesquisa na internet, não sei. Sei que foi há muito tempo, algures na adolescência. Recordo-me mais claramente de há alguns anos atrás pegar num livro do Paulo Coelho – “Diário de um mago”– e desse livro ter um apelo estranho sobre mim. Li os primeiros capítulos e a ideia do caminho de Santiago agarrou-se a mim, envolvendo-me, como se fosse algo que me chamasse de alguma forma.

No entanto, na altura, o livro não me deixou lê-lo. Não estava preparado para ele, ainda.

É engraçado que, em certas alturas das nossas vidas, pequenos eventos aconteçam sem que nos apercebamos do seu papel decisivo no desenrolar da nossa história no futuro. Esse momento, em que a ideia do Caminho ficou na minha cabeça, culminou agora, talvez uns 7 anos depois, numa influência profunda no como eu vejo o mundo à minha volta. É este tipo de acontecimentos que me fazem acreditar na não-aleatoriedade da nossa existência, o que é, em si, uma grande mudança de perspectiva pessoal.

A ideia do Caminho foi-me apresentada e implantada pelo livro tendo, esse apelo silencioso, ficado dentro de mim desde esse momento. Mas, como tantos outros apelos silenciosos que certos estímulos nos despertam, foi algo que ficou para “depois”, aquele “depois na reforma”, nada de muito urgente, até que… o meu mundo começou a desabar.

Nós nunca estamos preparados para quando o nosso mundo colapsa sem aviso prévio. Seja por um despedimento, por uma doença, por uma morte de alguém próximo, e tantas outras razões que nos tiram o chão e nos levam a sítios que não conhecemos e não estamos preparados para conhecer: a dor, a desilusão, a falta de sentido. No meu caso foi o fim de uma relação e a morte de um amigo.

Conheci aí todos esses sentimentos. Ali estava, 28 anos, no escuro, perdido. Escusado será dizer que, quando estamos nesse lugar escuro, tudo começa a piorar. O ano de 2017 trouxe-me profunda dor e perda, com a qual não estava preparado para lidar.

Foi aí, nesse momento escuro, que a ideia do Caminho voltou. Não sei explicar bem como, mas manifestou-se com uma intensidade tal que eu a senti como um chamamento. Nesse momento soube que, para ultrapassar toda a situação que estava a viver, precisava de caminhar aquele Caminho. Peguei novamente no livro. Fez-me todo o sentido do mundo. Estava decidido.

Desde a decisão até à concretização demorou mais de um ano. Durante esse ano muita coisa mudou, quase tudo melhorou. Infelizmente, a morte ninguém pode reverter, porém agora, entendo o seguinte:

É principalmente na aceitação do presente que está a felicidade. Todo esse momento da minha vida ensinou-me coisas que não poderia aprender de outra forma.

Muito resumidamente: aceitação. Se não houver nada na tua vida que te custe a aceitar, nunca vais aprender aceitação e, sem aceitação, estás MUITO mais vulnerável.

Felizmente, sempre tive família e amigos prontos para me dar a mão. Para me darem força e para me encorajarem a encontrar as respostas que precisava. Para estarem ao meu lado sempre, sem exigências nem questões. Agradeço por isso, não teria sido possível sair de onde estava sem eles.

Ainda antes do caminho a vida ganhou outra vez cor e trouxe-me novamente amor. Cheguei à conclusão que Deus, ou a energia, ou o Universo (como lhe quiserem chamar) tem sempre um novo capítulo, para quem tem coragem de virar a página.

Era 2018 e a vida estava melhor. O furacão tinha passado, e uma casa mais bela estava a ser construída. –“Afinal o caminho não era necessário para ultrapassar aquela situação.” – Foi o que pensei racionalmente. Todavia havia algo que me puxava para lá, desde aquele momento mais escuro em que a ideia tinha surgido como um relâmpago, que nunca esse chamamento perdeu intensidade. Era algo maior que o que eu poderia entender racionalmente.

Tinha que ir, e 2018 era o ano. Era agora, ou talvez nunca. E fui.

O que é o caminho de Santiago?

Para contextualizar quem não sabe do que estou para aqui a falar: há vários “Caminhos” de Santiago. Estes caminhos foram as rotas mais utilizadas pelos peregrinos que, desde o século IX, afluíam de toda a Europa para venerar as relíquias do apóstolo Santiago Maior (supostamente sepultado na Catedral de Santiago de Compostela). Foi uma das peregrinações mais importantes da Europa Medieval, época onde as peregrinações religiosas tinham uma relevância que não têm actualmente. Na altura era concedida ao peregrino indulgência plena (uma espécie de livre-trânsito) a quem fizesse o Caminho, desde que devidamente identificados. Nos dias de hoje, os peregrinos ainda devem apresentar-se identificados com a Vieira (uma concha, cujo simbolismo é atribuído aos povos ancestrais que antes do cristianismo peregrinavam a Finisterra, durante muitos séculos considerado o local mais ocidental do mundo conhecido e, como tal, o fim do mundo) e a credencial de peregrino (que serve para verificar com carimbos, recolhidos ao longo do caminho, se o peregrino está ou não a fazer a rota), servindo esta para ter acesso aos albergues de peregrinos existentes ao longo dos Caminhos.

Embora a génese do Caminho de Santiago tenha sido unicamente religiosa, hoje em dia é uma rota cultural, sendo percorrida pelos mais variados motivos (espirituais, desportivos, turísticos, etc) o que lhe retira um pouco, ou muito, da sua aura original. No entanto, o espírito de peregrino, para aqueles que vão dispostos a encontrá-lo, ainda lá permanece.

O caminho nem sempre foi tão popular como agora. Manteve-se como rota religiosa, sem tanto fulgor como na era Medieval, até aos anos 80 quando foi declarado Primeiro Itinerário Cultural Europeu em 1987, e popularizado por várias obras, como o livro que eu já referi “Diário de um Mago” do Paulo Coelho. Recentemente foram lançados filmes com base na experiência do caminho, que colocaram o Caminho de Santiago extremamente “na moda”. Na minha opinião, um pouco demais. Nota-se que o caminho, especialmente à medida que nos aproximamos de Santiago, se torna muito comercial, e que as pessoas não estão no “espírito” de peregrinos, são mais “turisgrinos”. Mas enfim, há que viver o nosso caminho e abstrair-nos dessa exploração de algo com uma origem tão mais profunda. No fim de contas, o caminho é como qualquer outra coisa na vida: o que cada um faz dela.

Preparação

Aviso-vos já: não fui nada organizado na preparação desta viagem, logo não sou um exemplo de preparação. No entanto, para quem estiver a considerar fazer o caminho, vou deixar aqui algumas considerações, até porque, na verdade, não exige assim tanta preparação.

1º Passo

A decisão está tomada, é o primeiro passo do caminho. Oficialmente iniciaste o caminho de Santiago. Parabéns, já és um peregrino!

Que caminho fazer?

Eu fiz o Caminho de Santiago mais “célebre”, o que é retratado nos livros e nos filmes, o caminho francês. Contudo há toda uma série de rotas possíveis e demarcadas para percorrer até Santiago de Compostela. Cada um deve avaliar por si qual tem mais apelo.

O caminho francês pela sua popularidade é o que tem mais condições ao nível de infraestruturas e sinalização para os peregrinos, no entanto, não foi por isso que o escolhi. Foi simplesmente porque foi sempre o que imaginei quando imaginava a experiência do caminho, logo, não faria sentido fazer, por exemplo, o caminho português.

Quanto tempo? Com quem?

Estes aqui são pontos em que talvez desmoralize alguns leitores.

A experiência do caminho, pelo menos numa primeira vez, fez sentido para mim tê-la sozinho. Com outra pessoa, ou em grupo, não tens a possibilidade de te libertar da tua “personalidade normal” do dia-a-dia. O Caminho revelou-se bastante importante na minha visão de mim próprio porque me mostrou uma outra versão de mim, sem os precedentes e preconceitos da minha “realidade”. Caso não vás sozinho(a) estás sempre dentro da tua conduta normal, é como uma corda que te prende à realidade e, na minha perspectiva, esta é uma experiência de libertação total da “realidade”.

Em relação à duração: quanto mais tempo melhor. Claro que não estou a dizer para se tornarem peregrinos a tempo inteiro e sobrevivam no meio da floresta a caçar esquilos no Caminho, contudo, penso que mais de 15 dias já dá para fugir da rotina e mergulhar mais profundamente no espírito do Caminho. Menos tempo, por exemplo uma semana, não dá para levar ninguém ao limite, acabam por ser umas ferias iguais a quaisquer outras. A questão é que a experiência de peregrinação também funciona em nós pelo desgaste que nos impõe. Tem de nos fazer quebrar. Não há crescimento sem dor.

Eu demorei 30 dias a percorrer o Caminho Francês. Julgo ser uma boa duração.

Não obstante, isto não passa da minha opinião. Tudo depende do objectivo de cada um.

Procedimentos

1) Comprar o bilhete para França. (ou para onde for o vosso inicio)

Eu fui de comboio, aconselho. Muito tranquilo, dá algum tempo para nos prepararmos mentalmente. Dá para sentir a antecipação da aventura.

Preço na altura:

LISBOA ORIENTE > HENDAYE (FRANÇA) – 57,30€ (14 horas)

HENDAYE > ST. JEAN PIED-DE-PORT – 15,70€ (2 horas)

2) Já compraste os bilhetes, agora não há nada a fazer.

Comprar Material – vais levar coisas a mais, não te preocupes, é um objectivo do caminho levar-te a entender que trazes sempre contigo “coisas” a mais. Podes sempre enviar o excedente para casa pelos correios, ou doar a algum albergue, eu utilizei essas duas opções.

Essenciais:

– Documentos: entre eles deve estar o cartão europeu de saúde que podes requisitar em qualquer serviço da Segurança Social, gratuitamente. Também deves ter a credencial do peregrino (podes pedi-la pela internet, ou comprá-la no dia da chegada ao teu ponto de partida, foi o que fiz. O preço é 2€.)

– Vieira: É a concha que te identifica como peregrino. É opcional e podes comprar também no ponto de partida. Preço: por volta de 2€.

– Uma boa mochila: comprei uma na Decathlon e deu perfeitamente, até podia ser mais pequena. Preço: 75€

– Umas boas botas/ténis (caso seja inverno ou verão): igualmente comprados na Decathlon, ténis de corrida trail, aguentaram bem os 800kms. Preço: 69€

– Boas meias de desporto: mandei vir da Amazon, 3 pares. Preço: 18€

– Saco cama: qualquer um, pequeno e leve. Comprei o meu no Lidl. Preço: 14€

– Kit primeiros socorros: medicação básica e consumíveis para tratar de bolhas. Juntei umas coisas que tinha por casa. Preço: talvez por volta dos 10€

– Roupa: comprar umas calças desportivas e um bom corta-vento, se não tiverem. Preço: muito variável. Minimo: 50€ (calças e corta-vento)

 Eu comprei daquelas calças que se transformam em calção, esqueci-me delas no albergue em Pamplona, no terceiro dia. Não me fizeram falta, tinha umas calças tipo leggin para corrida que vestia por baixo dos calções nos dias mais frios;

– Um boné de trekking, com aquela espécie de tapa-orelhas e pescoço, também é um bom investimento para os dias de muito Sol (Preço: 12€).

– De resto, roupa que já tenham e que seque rapidamente. 3 t-shirts de poliéster, 2 calções de desporto, uma sweat, 3 boxers/cuecas, chinelos.

Nota: eu fiz o Caminho em Agosto, caso façam em tempo mais frio ou chuvoso levem roupa mais quente e protecção extra para a chuva.

– Bolsa à tiracolo para usar depois de chegar aos albergues.

– Produtos de higiene: os que entenderem em recipientes pequenos, lembrem-se do peso.

– Sabão para lavar a roupa, alfinetes/molas para estender a roupa.

– Bloco de Notas A5 e caneta: Opcional.

– Lanterna de cabeça: opcional, mas dá jeito em dias que queres começar cedo e ainda é de noite. Preço: 10€

– Telemóvel e carregador: necessário para estarem contactáveis caso aconteça alguma coisa, o resto é facultativo. O nível de contacto com o mundo exterior deve ser decidido por vós. No meu caso utilizei para tirar fotos e para manter contacto com a minha mãe e com a minha namorada, e dar os parabéns a algumas pessoas importantes.

Levei várias coisas desnecessárias, por exemplo: selfie stick, cadeado, roupa a mais, utensílios para cozinhar e guardar comida, até levei uma rede para dormir na rua, caso precisasse.

3) Dinheiro – Quanto se gasta por dia no Caminho?

Dependerá do estilo de vida que queres ter no caminho.

No meu caso, optei por escolher sempre os albergues mais baratos, que andam entre os 5 e os 10€. A esse valor acresce o preço da comida.

Como quase todo o caminho fui acompanhado por outros peregrinos, acabávamos por fazer jantar em conjunto partilhando despesas, ficando esses bons jantares por volta dos 5€.

Há que contar sempre com mais alguma coisa que se gasta: um café, uma sandes (bocadillo) ao almoço, uma cervejinha para repor energia, etc. Há também albergues em que não há cozinha e os preços das refeições para peregrinos andam por volta dos 10€.

Se forem COMEDIDOS podem apontar para 15€/dia. A partir deste valor depende da experiência que cada um quer ter, e do valor que está disposto a gastar.

Eu, que estive sempre confortável (claro que não se pode exigir excelentes condições de conforto em albergues a 5€) e comi sempre bem, gastei na ordem dos 500€ em estadia e alimentação.

4) Fazer umas caminhadas longas com os ténis para habituação

5) Ir

Em conclusão, não é uma viagem que precise de muito planeamento. A estadia está sempre garantida, há muitos albergues pelo caminho. Qualquer pessoa com a mínima preparação física consegue completar as etapas, com mais ou menos sacrifício – há muitas pessoas com 60 anos ou bem mais a fazer o Caminho – por isso a condição física não é problema. O meu conselho é: se tens a vontade de ir, não há lugar no mundo em que possas gastar melhor 30 dias da tua vida.

Este é o primeiro artigo da série de dez que vou escrever sobre o Caminho de Santiago. Espero que seja útil.

Como uma nota final, faz agora seis meses que completei o meu Caminho. Instala-se uma certa nostalgia, mas o sentimento não é de saudade, é de gratidão. O Caminho mudou a minha perspectiva em quase todos os ângulos possíveis. Fica o meu desejo que possam um dia desfrutar dele, e deixar também nele um pouco de vós.

Com amizade,

Valter,

Uma Avestruz Voadora

Written by Valter